A verdadeira definição de Misericórdia - Venerável Fulton Sheen
Conforme o mundo se torna mais suave, ele usa mais e
mais a palavra misericórdia. Isso poderia ser uma característica louvável se a
misericórdia fosse bem entendida. No entanto muito frequentemente a
misericórdia é entendida como concordar com alguém que quebre a lei natural ou
a lei Divina, ou que trai sua pátria. Desta maneira misericórdia é uma emoção,
não uma virtude, como quando isso justifica que um filho mate seu pai porque
ele está “muito velho”. Para evitar qualquer atribuição de culpa, o que na
verdade é assassinato, é chamado eutanásia.
Perdido em meio a todas essas súplicas por misericórdia está o princípio de que misericórdia é a perfeição da justiça. Misericórdia não vem em primeiro lugar e depois a justiça; mas primeiro vem a justiça e então a misericórdia. O divórcio entre a misericórdia e a justiça é sentimentalismo, assim como o divórcio da justiça com a misericórdia é dureza. Misericórdia não é amor quando ela está separada da justiça. Aquele que ama alguma coisa, deve resistir àquilo que destruirá o objeto do seu amor. A capacidade de se indignar de forma justa não é uma evidência da falta de misericórdia e amor, mas sim uma prova disso.
Existem alguns crimes cuja tolerância é equivalente ao consentimento para com o seu erro. Aqueles que pedem a impunidade para assassinos, traidores da nação e semelhantes, com base em que nós devemos ser “misericordiosos, como Jesus era misericordioso”, esquecem que o mesmo Salvador Misericordioso também disse que veio não para trazer paz, mas a espada.
Como uma mãe prova que ama seu filho odiando o mal físico que poderia destruir o corpo da criança, assim Nosso Senhor prova que ele ama a Bondade, odiando ao mal que poderia destruir a alma de suas criaturas. Se um médico fosse misericordioso com um germe tifo ou pólio em um paciente, ou um juiz fosse tolerante com um estupro, seria como se Nosso Senhor ficasse indiferente ao pecado. Uma mente que nunca é rígida ou indignada é também sem amor, ou então está morta nela a distinção entre o certo e errado.
Amor pode ser duro, violento, ou mesmo feroz, assim como o amor do Salvador. Ele fez um chicote de cordas e expulsou os vendilhões e seus compradores do templo; Ele recusou a dar a palavra a homens de moral baixa como Herodes, pois isso só aumentaria sua culpa; Ele se volta para um procurador romano, vangloriando-se da lei totalitária, e lembra-lhe que ele não teria nenhum poder a menos que lhe fosse dado por Deus; Quando uma mulher com que ele fala no poço se finge de desentendida, Ele vai sem dó direto ao ponto e a recorda que ela teve 5 divórcios.
Quando homens chamados de justos tentaram colocar Ele fora de seus caminhos, Ele despedaçou as máscaras de suas hipocrisias e os chamou de “bando de víboras”. Quando Ele ouviu falar do derramamento do sangue dos galileus, foi com uma formidável dureza que Ele disse: "Todos vocês perecerão como eles fizeram, se não se arrependerem." Igualmente severo era Ele aos que ofenderiam os pequeninos ensinando o mal: "Mas todo o que fizer cair no pecado a um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que uma pedra de moinho lhe fosse posta ao pescoço e o lançassem ao mar!"
Se misericórdia significasse o perdão de todas as
culpas sem retribuição e sem justiça, isso acabaria em uma multiplicação de
erros. Misericórdia é para aqueles que não irão abusar dela, e nenhum homem irá
abusar dela se já tiver começado a fazer com que o errado seja trocado pelo
correto, como exige a justiça. O que muitos chamam hoje de misericórdia não é misericórdia,
contudo, mas um colchão de penas para aqueles que se escondem da justiça; e
assim eles multiplicam culpa e maldade pelo fornecimento de tais colchões. Se
tornar o objeto da misericórdia não é o mesmo que se tornar livre das dívidas,
como a palavra de Deus diz: "aos que chamou, também os justificou".
O homem moral não é aquele que é sentimental e mole,
ou aquele que drenou as suas emoções das partes mais severas da justiça; ao
invés, é aquele em que a mansidão e a misericórdia fazem parte de um largo
organismo, cujos olhos podem brilhar com justa indignação, e cujos músculos
podem se tornar como o aço em defesa, como os de Miguel, da Justiça e dos
Direitos de Deus.
Fulton Sheen (1895 - 1979) está em processo de canonização. Um grande Bispo norte americano, conhecido por ser pioneiro na evangelização através dos meios de comunicação da época e por seus livros acessíveis sobre a Fé católica. Nossa Senhora estrela da nova evangelização, rogai por nós.
Originalmente traduzido de: Way to Happiness by Fulton J. Sheen (Garden City Books, 1949).
Veja também: Três regras simples para a felicidade - Venerável Fulton Sheen


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